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29 Agosto, 2025 Sexo e Ansiedade: A tirania da performance

Já sentiram a pressão das expectativas irreais dos vossos parceiros?

Era o pico do Verão, a noite estava abafada e eu derretia na cama, enquanto o gajo em cima de mim reclamava comigo por não "acertar o ritmo"...

Sexo e Ansiedade: A tirania da performance

Decretando imediatamente que o nosso "contratempo" não podia dever-se a outra causa - era culpa minha! -, ele perguntou: 

- Mas o que é que se passa contigo hoje?

Na verdade, não sei o que se passava comigo. Calor a mais, vontade a menos... Sei lá! Fosse o que fosse, estava disposta a continuar e só parei porque nunca fui boa a lidar com a crítica. Uma coisa é abrir o livro para um gajo que nos dá tusa, outra é deixar que ele o transforme num livro de reclamações.

Ele foi-se embora sem grande drama, só tínhamos estado na cama um par de vezes e, se bem satisfatórias, nenhuma delas havia sido especialmente assinalável.

No entanto, a cena foi suficiente para abanar as minhas inseguranças:

- E se eu não fosse tão boa como pensava?!

Organizei rapidamente um zoom com as meninas. Naturalmente, o tema foram as expectativas que os homens criam sobre nós, nomeadamente sobre a nossa performance na cama.

- O meu marido diz que eu sou muito estática, que faço pouco barulho. Queria o quê, que eu gemesse como uma... Uma dessas... Dos filmes porno que eu sei que ele vê às escondidas?

Claro que a Vanessa não ia dizer uma “palavra suja”, como lhes chamava, mas a insinuação era óbvia.

- São actrizes, Vanessa. Não são prostitutas. E mesmo que fossem...

A Júlia, que também tinha a sua quota-parte de más experiências, cortou:

- Os gajos querem acrobacias! Se não saltarmos na cama e gritarmos como perdidas, provavelmente, vão dizer aos amigos que somos frígidas. A merda é que, às vezes, fico a pensar nisso e, em vez de me entregar ao momento, sinto-me como se estivesse num concurso de patinagem artística, a ser escrutinada por um júri com tradução em directo do Eládio Clímaco: França, 4 pontos; Espanha, 2 pontos; Portugal, 0 pontos...

Rimo-nos todas, até a Jorge, impávida como sempre, acalmar a excitação:

- Sexo não é competição. Nem malabarismo de circo, já agora. Sexo é dança. E quem se põe a olhar para os pés, arrisca-se a perder o passo.

Impressionava-me sempre como é que uma gaja tão seca conseguia ser, tantas vezes, a mais poética de todas!

A Júlia opinou:

- A pressão começa connosco. Uma vez, um namorado meu queria fazer umas posições mais exóticas, tinha andado a ler o Kamasutra! Nessa altura, não sabia o que era, nem percebia o que ele dizia. Esforcei-me tanto para fazer o que ele queria que caí do colchão! Ele riu-se, o que ainda ajudou mais a deixar o meu ego em frangalhos. Só pensava: Sou um desastre como mulher!

Então, perguntei:

- Mas não esqueçamos que o problema não é só nosso, não é? Eles também sofrem, e de que maneira, com as nossas expectativas. Já vi muitos gajos a suar quando percebem o animal que têm à frente! – ri-me. – “Espero estar à altura”, ou “Espero conseguir durar o bastante", dizem eles.

- Seja como for, a verdade é que essa “tirania da performance” tira-nos o gozo, a eles e a nós.  – confirmou a Júlia.

- Então, agora eu tenho que fingir prazer para sua excelência se sentir homem?!

Por essa altura, a Vanessa já não conseguia sair da redundância cíclica das queixas do marido.

- Também não vais longe assim! – fez notar a Júlia – Com esse gajo de que falei, fui ler o Kamasutra para ver se o compensava daquela noite malfadada. Mal me pus numa posição mais extravagante, veio-se em dois minutos! Foi-se embora envergonhado e deixou-me a olhar para o tecto, extravagante e cheia de comichões...

A pergunta, então, será:

- Porquê transformar o sexo numa olimpíada onde, no final, ninguém ganha a medalha?! Homens e mulheres, aprisionados num disco riscado de expectativas irrealistas... Eles a quererem ser super-homens, nós a tentar ser super-mulheres!

– Eu aprendi com as minhas parceiras que o erro faz parte do jogo – sintetizou a Jorge. – O prazer vem da entrega, não da táctica, nem da técnica. Além de que, muitas vezes, o gozo maior está na viagem, não no destino.

Claro que a Jorge tinha razão.

Mas de onde nos vem, então, a ansiedade pelo desempenho? Dos filmes que mostram amantes perfeitos em orgasmos sincronizados? Das conversas de bar onde os homens se vangloriam da sua resistência de Hércules? Das mulheres que se gabam das suas artes e ofícios de estrelas porno?

O problema das expectativas é sempre o mesmo: a sua irrealidade! Porque não analisam a verdade, antecipam-na. E ao antecipá-la, acabam inevitavelmente por desviá-la do seu destino natural.

Claro que não existe o “desempenho perfeito”. Existe sexo fabuloso, e por isso, amamos fazê-lo. Mas, como tudo na vida, também o prazer é subjectivo. E não há fórmulas. O que funciona para uns, raramente funciona para outros.

Pelo que a Jorge tinha toda a razão: o caminho não está na técnica, nem na táctica, mas na entrega!

A melhor receita para um bom desempenho, sem dúvida, é "sentir". Senti-los a eles, sentirmo-nos a nós, para conseguirmos unir-nos no mesmo ritmo e evitarmos a dança em "contratempo".

Quando um músico não ouve o outro, não há melodia: só caos!

Desmistifiquemos, pois: sexo não é competição, é aventura. Portanto, parem os cronómetros, aprendam a cair do colchão e entreguem-se ao momento. Mantenham a calma - mesmo na urgência - e o foco no que os corpos vos dizem. Porque os corpos nunca mentem.

Fechei o zoom e percebi que tinha uma última coisa a dizer. Liguei ao meu gajo:

- Próxima ronda, sem medalhas.

Ele não percebeu, mas não interessava. Voltámos a encontrar-nos e o prazer ganhou.

E vocês, leitores e leitoras, já sentiram a pressão das expectativas irreais dos vossos parceiros? Contem-me tudo pelo e-mail: sexo-e-ansiedade@hotmail.com.

Até para a semana!

Beijos da

Sara X

(Sara escreve de acordo com a antiga ortografia)

Sara X

Sara X

Sexo & Ansiedade é uma crónica semanal assinada por Sara X, sobre a vida na cidade de 4 amigas – a própria autora, Júlia, Jorge e Vanessa –, que nos oferece um mosaico pitoresco das experiências quotidianas, stresses, problemas e aventuras da mulher moderna, com especial enfoque nas áreas amorosa e sexual.

Actuais e divertidas, curiosas e activas, tão diferentes e tão iguais, Sara e as amigas personificam a mulher do Século XXI na sua busca pela definitiva libertação, vencendo obstáculos e derrubando barreiras, sem nunca deixarem de fazer, pelo caminho, a festa que merecem...

Sara X é uma mulher directa, independente e sedutora. Escritora de profissão, distingue-se pela forma prática, “fora de merdas”, como olha para a vida. De natureza aberta, bissexual, gosta de chamar as coisas pelos nomes e escreve sobre o sexo tal e qual como o pratica: sem inibições.

As suas crónicas chegam agora ao Blog X onde, por maiores que sejam os segredos e mistérios do “eterno feminino”, Sara não deixará nada por dizer!

Comentários e sugestões para o e-mail: sexo-e-ansiedade@hotmail.com

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