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29 août, 2019 Entrevista com Armando Sarilhos

«O sexo é aquela coisa fascinante que todos desejam mas muitos ainda escondem.» Entrevista com Armando Sarilhos

Começou a colaborar no Blog X em Setembro de 2018 e desde então assina semanalmente um conto erótico nas nossas páginas. Nesta entrevista irá conhecer um pouco mais sobre o homem por detrás das histórias. Uma conversa sobre literatura, sexo e pornografia, mas também sobre a moral e o pudor dos portugueses.

Classificados X: O que é para ti o porno?

Armando Sarilhos: É algo que trabalho a nível literário e que consumo a nível recreativo.

Classificados X: E consomes muito?

Armando Sarilhos: Consumo na medida suficiente… (risos). Não sei se é muito ou pouco, mas sou devoto e praticante. Haverá fases em que consumo mais e outras menos, suponho que como toda a gente. Também depende da situação de vida no momento. Se estou com alguém provavelmente consumo menos. Mas nunca deixo de consumir, porque é algo que me dá prazer.

Classificados X: Existe o perigo de o porno se tornar um substituto do sexo? Ou isso é um mito?

Armando Sarilhos: Se isso acontecer, e admito que possa acontecer, a pessoa tem um problema. O que estás a perguntar é, de certa forma, se o virtual substitui o real e, em última análise, se a punheta substitui a foda. Não me parece, porque são duas coisas completamente distintas. Uma homem ou uma mulher, por terem um parceiro e fazerem sexo mais ou menos regular, não deixam de se masturbar. Pessoas que se casam continuam, com toda a naturalidade, a fazê-lo. Desde logo, porque é algo íntimo de cada um, que nos acompanha a vida inteira, e não há outro prazer como esse. O Woody Allen tinha aquela frase, dizia que adorava masturbar-se porque era fazer sexo com ele próprio. É por aí, é um prazer intransmissível, que só tem a ver connosco. Mesmo se nos masturbamos simultaneamente com um parceiro, não é a mesma coisa, porque aí o jogo é outro, é pela partilha. Mas essencialmente são prazeres diferentes. Por gostarmos de peixe, não começamos a substituir todos os pratos de carne por cherne ou bacalhau… O equilibrado é comermos ambos, cada um no seu tempo certo. E já agora, porque não, como muitos fazem, em vez de pensarmos em substitutos, integrarmos o porno na vida sexual? As duas também podem conviver…

Classificados X: Tens uma opinião sobre a indústria do sexo em Portugal?

Armando Sarilhos: Provavelmente teria, se houvesse uma indústria do sexo em Portugal (risos). Pois, não sei, isto é, não sei se chega a haver uma indústria... Há um mercado de consumo que tornou necessária uma resposta a nível da oferta. Talvez até seja um mercado em crescimento, mas não terá ainda dimensão para se chamar uma indústria. Uma indústria incluiria produção audiovisual, que é residual. Uma indústria incluiria edição literária, que é inexistente… Estou só a dar exemplos. Para haver indústria é preciso que a mesma produza e se alimente do que produz. Não é por haver cá um salão anual que se pode pensar que temos aqui algo consolidado, tanto mais que a maioria dos conteúdos que vemos nesses salões até são estrangeiros. Também é verdade que, com a internet, houve uma globalização de conteúdos de tal ordem que torna quase inútil haver um investimento local para satisfazer a procura. Porque a oferta global é basicamente infinita. Hoje todos acedemos quase imediatamente aos conteúdos que queremos consumir, muitas vezes de forma gratuita e em qualquer parte do mundo. Mas a verdade é que alguém, algures, continua a produzir e nós não. Teria piada haver produção de autor, com o cunho nacional. Boa literatura erótica portuguesa, bons filmes porno portugueses... Melhores do que o Fim de Semana Lusitano, de preferência, que era realmente mau (risos). Creio que hoje já apareceriam coisas com mais qualidade.

Agora há, isso sim, um crescimento evidente do nicho de mercado que trabalha a promoção de convívios, da comercialização pessoal ou virtual do sexo. Porque, lá está, aqui funciona a necessidade local: a procura local que exige uma resposta local. Aqui a globalização não conta para nada. E um site como o Classificados X, com a dimensão incrível que tem, é a melhor expressão desse crescimento. É provavelmente o expoente máximo desta pequena evolução. Ainda me lembro duma época em que os jornais proibiram os anúncios de teor sexual, por exemplo. Hoje há muito mais abertura a esse nível, mesmo que tudo o que tenha a ver com sexo ainda fique fora do mainstream, dos canais ditos “regulares”. Tens o exemplo do Festival Queer de Cinema. Ou seja, as coisas existem, não são censuradas, mas vivem um pouco à margem. Mas por outro lado isso também significa que já têm força suficiente para reclamar o seu próprio espaço, e isso é um sinal de crescimento. A outra parte do trabalho, de mudar as mentalidades para que haja uma aceitação mais natural das coisas, é mais complicada.

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Classificados X: Estás a dizer que os portugueses ainda têm muito pudor?

Armando Sarilhos: A maioria, ou uma grande parte, claramente tem. Ou pelo menos faz que tem, porque na intimidade se calhar depois não é tanto... Dá-me a sensação de haver coisas a melhorar, fruto dos tempos, mas ainda há muitos tabus. O sexo é aquela coisa fascinante que todos desejam, que povoa as nossas fantasias, mas que muitos ainda escondem. Continua a haver temas difíceis e palavras proibidas. O que se faz nas escolas é muito pouco. Como se podem esclarecer os jovens sobre a sexualidade se esse esclarecimento é feito com medos, vergonhas, pudores e meias palavras? Mas é a resultante natural de uma civilização em que a moral, sobretudo a moral religiosa, teve sempre um peso monumental. Fomos formatados por séculos de moralidade e épocas de verdadeiro fanatismo, e não se muda essa formatação de qualquer maneira nem de um dia para o outro. É preciso ir atrás, pesquisar, perceber as razões e aprender a pensar pela própria cabeça. Ou então, contar com as gerações mais novas e esperar que a mudança de mentalidades siga o seu curso natural até que um dia tudo isso, todas essas vergonhas e pudores, desapareçam por si só. Agora, isso é difícil sem acção, sem afirmação, porque as coisas não mudam só porque estamos à espera que elas mudem. Eu sou optimista em relação a isto porque me parece a evolução natural das coisas, do ser humano, apesar de essa dita evolução, ao longo da História, muitas vezes se ter manifestado de forma enviesada. Mas nem sei de que século estaríamos a falar, embora me pareça inevitável que, muito a longo prazo, acabe por acontecer. Estou a referir-me em concreto a que a falência de certas instituições, que já não se compadecem com os tempos modernos, acabe mesmo por se produzir. Mas pronto, esta é a parte do optimismo, do sonho... Olhando para a actualidade, para os dias que correm, é um trabalho muito difícil, porque a moral ainda está aí. Ainda vemos nos candidatos à presidência da república, por exemplo, a necessidade de exprimir publicamente a sua crença religiosa. Obviamente, isto é para cativar um segmento da população, muito grande, que tem esses valores muito presentes. O que significa que ainda são a maioria. Mas as duas coisas, a moral e o pudor, andam sempre ligadas.

Classificados X: A libertação sexual ainda não chegou a Portugal?

Armando Sarilhos: Nem a Portugal nem a lado nenhum. O que houve foram fogachos pontuais, produzidos por contextos muito particulares da História. Estou a falar do mundo em geral e também em Portugal. Não foi assim há tanto tempo que em Portugal se fizeram filas para ver o Garganta Funda. Não passou assim tanto tempo desde que a RTP se atreveu a emitir O Império dos Sentidos. Olhando para esses momentos, poder-se-ia pensar que a libertação vinha aí. Só que a libertação sexual, como a moral, a intelectual, a artística, a filosófica, etc, e isto é uma coisa que aprendemos com o passado, não é algo a que possamos pôr um prazo. Será um trabalho permanente, provavelmente para toda a nossa existência.

Classificados X: Falando concretamente na tua área, a literatura erótica. Já foi um formato relativamente popular, mas hoje praticamente desapareceu.

Armando Sarilhos: Infelizmente, para quem é apreciador. Porque hoje há mil coisas fabulosas, sofisticadas, tecnológicas, mas nenhuma oferece o prazer que a literatura oferece. Não estou a dizer que é melhor, mas que é diferente. Lá está, como as fodas e as punhetas. A literatura porno, escondida nessa designação de “literatura erótica” por via desse mesmo pudor de que falávamos atrás, trabalha com a “imaginação”. Como qualquer outro livro. Hoje há milhões de conteúdos disponíveis a qualquer hora, coisas sofisticadíssimas, mas nenhuma tem o poder de derrubar o prazer de ler… Isto, claro, para quem o tem. Porquê? Porque trabalha em nós de uma maneira diferente de tudo o resto. Age, como disse, na nossa imaginação. Lemos as palavras e geramos as imagens, e ao fazê-lo tornamo-nos participantes da história, co-autores dos acontecimentos e do destino dos personagens. A nível sexual, sendo uma área que vive muito no universo das fantasias de cada um, então a expressão dessa possibilidade, dessa interactividade, é fabulosa. Por isso nos dá uma tesão completamente diferente de qualquer outro tipo de porno. É quase uma tesão íntima, porque não é apenas uma reacção ao que se recebe, como acontece por exemplo com um vídeo, mas igualmente uma reacção ao que se produz, porque o nosso imaginário e as nossas fantasias estão a trabalhar para a história.

Eu comecei a ler literatura porno muito cedo, e tenho bastante pena que pouco ou nada vá saindo de novo, porque seria interessante enquadrar os formatos clássicos do porno na realidade moderna. Eu tento fazê-lo nos meus contos, bem ou mal os leitores decidirão... Mas tenho que dizer que se hoje dedico algum do meu tempo à escrita porno, é porque fui sempre um leitor de literatura porno! Por isso tenho pena do caminho que levou. Mas também por isso, para mim, tem sido tão incrível estar num espaço que me permite dar largas a esse lado da minha expressão. Há muito tempo que procurava um lugar, um fórum para o fazer, e estou grato ao Blog X por me permitir, uma vez por semana, de alguma forma recriar o gosto por um formato que parece, com pena minha e talvez de mais meia dúzia de gatos pingados, irremediavelmente condenado ao esquecimento.

entrevista armando sarilhos03

Classificados X: Para terminar, como concilias a tua vida pessoal e profissional com a actividade de “escritor porno”?

Armando Sarilhos: Concilio separando muito bem as coisas. O material que as pessoas lêem aqui tem muito pouco a ver com o que o autor é, digamos, na vida real. Eu não preciso de ser um cowboy para escrever um western, assim como não preciso de ser um garanhão ou um grande aventureiro sexual para escrever um conto porno. As histórias que eu escrevo não são as minhas histórias, as fantasias que exploro não são as minhas fantasias. É um trabalho de imaginação, que tem uma base de pormenor que pode ou não vir duma experiência real, mas que não é limitada a essa experiência real. Se reparares, muitas das minhas histórias são contadas na primeira pessoa por mulheres. Obviamente, são personagens que eu uso como veículos para contar este ou aquele episódio. Portanto, o que está ali não são os meus desejos nem as minhas taras nem as minhas fantasias. É uma ficção. Por essa razão, esta área que eu exploro na minha actividade como escritor, não toca nas outras coisas que eu faço profissionalmente nem muito menos na minha vida pessoal. Como te dirá qualquer bom profissional do sexo, é algo que faço, que quero fazer o melhor possível e que tenho gosto em fazer. Qualquer semelhança entre o material e o autor acaba aí, e se alguma houver será pura coincidência.

Cinco rapidinhas sem desmontar

Uma frase

Como escrevo tantas, escolho uma que não é minha: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”. Do José Gomes Ferreira, nas Aventuras de João Sem Medo.

Uma pergunta

O amor é foder ou o amor é fodido?

Um lema

Todos pelo pêlo!

(risos) Quem lê os meus contos sabe da minha predilecção quase obsessiva por pintelheiras fartas em detrimento das conas rapadas, que têm um ar assexuado, despersonalizado até. Não contribui em nada para o feminino da mulher, apenas para o híbrido. Já era altura desta trend acabar e as coisas voltarem a ser como a natureza as fez. Quando o assunto é o pintelho, sou um tradicionalista!

Um desejo

Gostava de ser quem sinto que sou mas acho que muitas vezes não consigo ser.

Parece complicado, e é.

Uma paixão

Sou um homem de muitas paixões. Posso dizer que o sexo é definitivamente uma delas. O sexo com a liberdade que deve ter e com todas as possibilidades em aberto…

  • A porteira com febre de piça
  • Fode-me toda, caralho!
  • O meu sobrinho rebelde

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