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20 Mayo, 2020 Viver como pessoa trans em Portugal: o testemunho de Kiki Pais de Sousa

Esta mulher bem resolvida que não renega o seu passado fala dos desafios de ser trans em Portugal. Viver como pessoa trans em Portugal: o testemunho de Kiki Pais de Sousa

Alexandra Pais de Sousa, mais conhecida por Kiki, é um dos rostos do activismo LGBTI+ em Portugal. Como mulher trans fala sem papas na língua do que é viver esta realidade no nosso país e dos desafios que enfrenta no dia-a-dia, numa entrevista exclusiva ao Classificados X.

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Classificados X - É, muitas vezes, identificada como "uma mulher transexual operada". Como é que se define a si própria? Como prefere que a apresentem?

Kiki Pais de Sousa - Eu tenho imenso orgulho no meu percurso, não só no percurso como mulher transexual, mas também como antes. Todos nós temos um passado e eu também tive um passado. Eu tenho muito orgulho de todo o percurso que fiz. Para mim é importante não esquecer o passado, desde o momento em que eu nasci até à actualidade. Daí que faço sempre questão de dizer que é importante tudo aquilo que ficou para trás, tudo aquilo que construí, tudo aquilo que me deu força para chegar onde estou actualmente. Logicamente que eu sou uma mulher. É isto que eu tenho no meu Cartão de Cidadão. Eu fiz a cirurgia de mudança de sexo em 2015. Portanto, tenho a mudança de nome, tudo isso. Mas tenho muito orgulho da minha identidade de género. A minha identidade de género é mulher transexual.

Classificados X – Refere-se à cirurgia de reatribuição ou redesignação de sexo que fez em 2015, no Hospital de Jesus, a clínica privada do Dr. º Décio Ferreira. A que se deveu essa escolha por fazer a operação no privado?

Kiki Pais de Sousa - Sabendo dos inúmeros problemas e lacunas existentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS), eu nem sequer pus a hipótese de iniciar o que quer que seja no SNS. Em primeiro lugar, porque quando iniciei a minha mudança de género - inicialmente, começamos pela mudança de género, depois vamos para a mudança de sexo - em 2012, ia fazer 46 anos. Sensivelmente, menos de um ano antes, tinha sido aprovada a primeira lei da identidade de género e eu sabia de antemão que, com a minha idade, se fosse para o SNS, as coisas iam-se arrastar no tempo.  Obviamente que não era isso que eu pretendia. Eu queria um processo que fosse o mais rápido possível, cumprindo todos os requisitos médicos exigidos.

Classificados X – Conhece pessoas que tenham feito as suas cirurgias e passado por todo esse processo no SNS?

Kiki Pais de Sousa - Tenho conhecimento de algumas pessoas que, infelizmente, não têm recursos económicos e que têm de estar à espera e, muitas vezes, têm cirurgias marcadas e nos dias das cirurgias, por causa de situações variadas, cancelam-nas e mandam-nas para casa. Em termos emocionais e psicológicos, é um processo bastante grave e isso eu não queria que me ocorresse.

“Há falta de respeito muito grande pelas pessoas trans”

Classificados X – O SNS não consegue dar resposta a todos os casos?

Kiki Pais de Sousa - Não, não dá. Continua a não dar resposta. As coisas estão muito demoradas, mesmo muito demoradas, e há uma falta de respeito muito grande pelas pessoas trans. Tenho vários casos de pessoas minhas conhecidas que relatam situações…. Há uma insensibilidade para esta questão, para o sofrimento que as pessoas têm e isso leva quem tem recursos a fazer as cirurgias no privado.

Classificados X – Quem não tem dinheiro arrisca-se, portanto, a ter de passar por todo um processo muito moroso e doloroso...

Kiki Pais de Sousa - E com consequências muito graves para a pessoa, com tentativas de suicídio, depressões... Porque as pessoas estão em sofrimento. E há uma insensibilidade para este tema... As pessoas são sensíveis quando se têm aquelas doenças graves... A maior parte das pessoas são sensíveis. No nosso caso não, acham que é um capricho, que é uma doença mental.... Falam sem conhecimento de causa, sem propriedade, infelizmente.

Classificados X – Relatou em entrevistas que foi vítima de discriminação quando era mais jovem e andava no Liceu Camões, em Lisboa. Mais recentemente, desde que se tornou uma figura conhecida, alguma vez se sentiu discriminada ou posta de parte?

Kiki Pais de Sousa - O poderem olhar ou poderem comentar, é um direito que as pessoas têm e não me preocupo com os olhares. Isso não me afecta. Eu sei que muitas pessoas ficam sensibilizadas e valorizam ou sobrevalorizam esses aspectos. Eu não sobrevalorizo. Daí que há muita coisa que até pode ocorrer, mas de que eu não me apercebo. Eu tenho outras coisas mais importantes para me preocupar. Aquilo que me preocupa é quando estou directamente com as pessoas e se sinto que há alguma coisa - mas tenho uma personalidade muito forte e se houver algum sinal, sou muito directa. E realmente, desde que comecei a fazer a minha mudança, principalmente desde 2015, 2016, que comecei a dar a cara, não tenho nenhuma razão de queixa, antes pelo contrário. Não tenho dessas questões relacionadas com discriminação. As pessoas tratam-me muito bem, com muita educação, algumas até com bastante carinho, com deferência. Obviamente que eu evito ir a determinados locais que sei que são problemáticos. A questão da identidade de género e da orientação sexual é, muitas vezes, o mote para as coisas começarem. Mas mesmo no meu dia-a-dia, e eu gosto muito de andar a pé, de ir ao supermercado, de fazer compras, e na realidade, não tenho problemas - os problemas que posso ter é os que outras mulheres têm, de assédio sexual.

Classificados X – Você é uma mulher de sucesso, bem resolvida e de bem consigo própria. Pela forma como fala, parece que o seu percurso foi muito fácil. Foi de facto fácil?

Kiki Pais de Sousa - Não foi fácil, mas eu não vou dramatizar. Eu tive de lutar logo no Liceu, as coisas foram muito complicadas porque ainda não tinha ferramentas, era adolescente.... Sou filho único e era uma criança super-protegida pelos pais, por uma tia-avó. Enfim.... Foi complicado até aos 17, 18 anos. A partir do momento em que eu me emancipei, na medida em que fiz um curso de manequim, na altura uma escola muito famosa, a do Bryan McCarthy, e a partir dos 18 anos, comecei a trabalhar como manequim, em Portugal e no estrangeiro. Tive longos períodos em que estava sozinho e nós sabemos que o mundo da moda também não é propriamente muito fácil. Tive de me desviar de muitas coisas, principalmente numa altura onde ainda havia a questão da SIDA... Ainda havia muitas pessoas que morriam! Eu própria tive de me concentrar e fui buscar às minhas bases, aos meus ensinamentos, tudo aquilo que me ajudava a superar. E foi isso que transpus para a minha vida. Tive de me ir desviando daquilo que era nefasto para mim e que me podia prejudicar. As escolhas que nós fazemos, boas ou más, depois vão-se reflectir ao longo da vida - ou nós ficamos mais fortes ou mais fracas, dependendo. É a diferença entre o copo meio vazio ou meio cheio. Eu, normalmente, costumo ver sempre as coisas pelo lado positivo, mesmo até as coisas negativas. Porque senão estou a prejudicar-me a mim própria.

Classificados X - Ainda está ligada à Variações, a Associação de Turismo LGBTI+ de Portugal?

Kiki Pais de Sousa - Sou uma das sócias fundadoras da Variações. Sou secretária do Presidente da Assembleia. É uma Associação que defende os direitos e os interesses dos empresários que têm estabelecimentos no segmento LGBTI+. É muito importante porque nós sabemos que há várias associações empresariais e não existia em Portugal, até à Fundação da Variações, nenhuma com estas características. Fundamos a Associação em 2017 e, formalmente, foi em Janeiro de 2018. Já estamos com dois anos e pouco.

Classificados X – A Variações esteve envolvida na candidatura à organização do EuroPride 2022, chegando a ser recebida pelo Presidente da República.

Kiki Pais de Sousa - O Presidente da República recebeu-nos em Julho do ano passado. Obviamente que nos desejou muito boa sorte e estava bastante confiante que pudéssemos ter uma boa posição. E tivemos! Um honroso segundo lugar! Ficamos à frente de cidades como Barcelona que ficou em quarto lugar. O que nós queríamos era ganhar. Mas foi o primeiro ano que concorremos e o país que ganhou, a Sérvia, também tinha um fortíssimo lobby, até porque a primeira-ministra é lésbica. Em Belgrado, que ganhou, as coisas estão muito diferentes de Portugal e faz sentido um país e uma cidade com aquelas características ter ganho porque há um trabalho a fazer. Portugal é um país que tem Leis bastante progressistas.

Classificados X – A Lei de auto-determinação da identidade de género que entrou em vigor em Agosto de 2018 é considerada uma das mais progressistas do mundo. O que acha desta legislação?

Kiki Pais de Sousa - É algo com que nos congratulamos. São estes pequenos avanços que, depois no todo, vão fazendo com que Portugal seja um dos países onde há leis bastante progressistas. E também é considerado um país muito seguro para as pessoas LGBTI+.

“Importante nisto tudo é o amor da família”

Classificados X – Participa activamente em iniciativas relacionadas com a temática LGBTI+. Qual é o feedback que obtém em termos da realidade das pessoas trans? Porque uma coisa é a legislação e outra coisa é a realidade. A nossa sociedade é assim tão progressista quanto a Lei?

Kiki Pais de Sousa - Não é tão progressista quanto a Lei, mas também não é tão demoníaca quanto, às vezes, algumas pessoas querem fazer crer. Estamos aqui num meio termo. Todas estas questões relacionadas com a orientação sexual e a identidade de género são relativamente recentes, começaram a entrar no nosso dia-a-dia há poucos anos. Não se falava. E quando se falava era de uma forma depreciativa e os modelos eram sempre estereotipados. Neste momento, as coisas já caminham de uma outra forma.

Classificados X – E como é que se pode e deve continuar esse caminho?

Kiki Pais de Sousa - Em primeiro lugar, é muito importante que sejam os próprios a falar, a ter voz. Porque somos nós que temos propriedade para falar. Pessoas que não passaram pelos processos, que não sabem o que é, não têm essa vivência, não têm a propriedade que nós temos. Isso é muito importante. Em Portugal, temos de ter também a maturidade e a sensibilidade para perceber que isto não pode ser algo instantâneo - instantâneo é as Leis serem implementadas e, automaticamente, todas as pessoas ficarem actualizadas. As coisas não são assim. Leva tempo. Temos de dar tempo ao tempo. Por isso é que é importante este tema ser cada vez mais falado, mas falado com seriedade, com abertura e de forma descomplicada, para as pessoas entenderem.

Classificados X – Também por isso é que tem participado em programas de televisão como o "Você na TV" da TVI, entre outros?

Kiki Pais de Sousa - É importante nos produtos de massa, como as telenovelas e todos estes programas de massas, terem esses ditos modelos de pessoas com orientação sexual diferente daquilo que as pessoas consideram a norma, que é a heterossexualidade, e também de pessoas que fizeram a dita mudança e que têm uma outra identidade de género.

Classificados X – É uma empresária de sucesso com a SaunApolo 56, um projecto único no panorama nacional.

Kiki Pais de Sousa - É um projecto único no mundo! Uma sauna SPA mista, LGBTI+ e heterofriendly. É um espaço que é aberto aos homens, mulheres, casais, pessoas trans, liberais, pessoas com diferentes orientações sexuais e identidades de género. Neste estabelecimento, apenas disponibilizamos os espaços, as valências e serviços e quando falamos em serviços temos o bar e as massagens.

Classificados X – O que está a dizer é que a SaunApolo 56 não disponibiliza serviços sexuais, como algumas pessoas poderão achar erradamente.

Kiki Pais de Sousa - Temos regras, as chamadas normas privativas e as legais, que estão bem clarificadas e temos o cuidado, antes de o cliente efectuar o pagamento, de pedir para ele ler. Mas a maior parte das pessoas não lê. Nós aqui, neste estabelecimento, também nos defrontamos com a exigência dos clientes em ter aquilo que eles idealizam. Eles pensam que temos aqui uma fórmula para, pela módica quantia de 30 euros, eles cumprirem todas as suas fantasias. Ora, essa não é a proposta comercial deste estabelecimento.

Classificados X – O que podem os clientes da SaunApolo 56 esperar encontrar?

Kiki Pais de Sousa - O cliente quando aqui vem sabe que tem um espaço com um ambiente muito seleccionado, fazemos selecção de entradas, temos um número reduzido de clientes, uma higiene irrepreensível, uma bonita decoração. É um espaço que já está aberto há 9 anos e que tem sido muito falado, não só a nível nacional, como internacional, por ter características únicas, por ser inclusivo. O modelo de saunas mistas é, geralmente, mais virado para a parte heterossexual. Este aqui é inclusivo porque é misto, mas é LGBTI+. Eu faço muita questão de ter a sigla LGBTI+, coisa que os outros estabelecimentos não têm, têm receio porque afugenta clientes. Há pessoas heterossexuais que não gostam de estar em ambientes com pessoas com outras orientações sexuais.

Classificados X – E planos para o futuro há, nomeadamente para expandir a sauna a outras zonas do país?

Kiki Pais de Sousa - Já tive algumas propostas, agora, particularmente, com o afluxo que temos de estrangeiros em Portugal. Mas ainda não tenho nada de concreto.

Classificados X – Para terminar, quer deixar algum conselho ou mensagem às pessoas trans?

Kiki Pais de Sousa - Nós, pessoas trans, devemos ter orgulho na nossa orientação sexual e identidade de género. Devemos lutar para que as pessoas nos respeitem, seja no seio da nossa família, com os amigos, nos locais onde trabalhamos. Depois também temos de ter força, coragem e determinação porque o percurso, em particular de uma pessoa trans, exige que nós tenhamos estas bases. Porque se não, não conseguimos aguentar o dia-a-dia. É muito complicado. Vamo-nos abaixo, vamos ficar com depressões e outras coisas mais. Importante nisto tudo é o amor da família que faz toda a diferença. É aí que faço sempre um apelo às famílias que têm pessoas trans, pessoas de diferentes orientações sexuais, que respeitem, que abracem, que acarinhem os seus familiares. Faz toda a diferença o amor.

 

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Sobre o Autor

Gina Maria

Gina Maria

Jornalista de formação e escritora por paixão, escreve sobre sexualidade, Trabalho Sexual e questões ligadas à realidade de profissionais do sexo.

"Uma pessoa só tem o direito de olhar outra de cima para baixo para a ajudar a levantar-se." [versão de citação de Gabriel García Márquez]

+ ginamariaxxx@gmail.com (vendas e propostas sexuais dispensam-se, por favor! Opiniões, críticas construtivas e sugestões são sempre bem-vindas) 

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