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18 Junio, 2020 Noite sem memória

Não sei como tudo começou. Como viemos todos parar aqui. Muito menos o que nos fez transformar-nos em animais.

É tarde demais quando acordo, tarde demais sobretudo em função de mim mesmo. Não sei quem sou. Não sei onde estou. Não sei como vim parar aqui. E, no entanto, sei-o sem o saber, esta é a minha casa, a minha sala, a minha “festa”.

Noite sem memória

O sol, estúpido como tudo o que grita à revelia do interesse exterior, entra pelo compartimento como um intruso festivo, desajustado, ferindo de amarelo vivo o abandono das coisas. Tudo em meu redor jaz inerte, corpos, garrafas, copos, espelhos, cadeiras, silêncio, tudo vazio. Silêncio vazio mas ensurdecedor… Sinto a cabeça enfiada num esfíncter universal, dorida, dolorosa, portadora e espectadora dos lampejos duma dor absurda, catatónica.

Não sei como tudo começou. Como viemos todos parar aqui. Muito menos o que nos fez deixar de ser pessoas e transformar-nos em animais. Porque o quadro não engana, isto não é uma casa onde humanos empreendam vida, mas um redil onde bestas vieram beber água, morrer ou abraçar a decadência.

Não estou nu mas também não estou vestido. Despejado na alcatifa, entre os despojos do que a noite trouxe e deixou, estilhaço perdido de uma explosão, a garganta seca como a voz dos cactos. Ao meu lado, um corpo esquecido, de nudez esquecida, tetas grandes derramadas. Uma cenoura espetada no cu até bem dentro. Não uma cenoura mindinha. Um senhor cenorão, enfiado nas nalgas. Não faço ideia quem seja, não a conheço. Abre um olho e pergunta.

Dormiste bem, amor?

Todo o passado me é incerto, desconhecido. Desconheço que juntando sílabas se formam palavras, que reunindo vontades se matam desejos, que abdicando de tudo o que é racional se atinge a ponta do infinito onde há potes de ouro e nos sentimos vivos. Tento mover-me mas o meu corpo não responde. Não sinto nada a não ser a escuridão dos ossos, um completo desacerto do destino.

O que faço aqui? Aliás, como cheguei aqui?

A cara dela sopra vapor quente em cima da minha perna, o nariz perto do caralho. Tenho, sei lá como nem porquê, uma erecção de espetar pregos, a cabeça mais roxa do que é costume, cabeça que se andou a roçar por carnes secas.

Dormiste bem, amor?

Não faço ideia de quem ela seja, ajeito o pau até lho meter na boca e com a mão sobre a cabeça despenteada faço eu os movimentos que ela não faz. O caralho dentro daquela boca quente reanima-me como um shot de whiskey mental, ela não me chupa na vida real, chupa-me no sonho. Fecho anda mais os olhos, nem sei como isso é possível.

De súbito uma ânsia. Como se a única forma de me ligar àquele instante fosse através da tripa, da entranha que se estreita e comprime para não elaborar o vómito. Estou por um fio. É o cheiro que ofende o ar. Cheira a suor, a chulé, a colhões, a cu. Tento abrir os olhos e situar-me. Fico tonto. Em meu redor tudo jaz inerte, homens e mulheres, nus e solitários, suplicantes e enroscados, metidos uns nos outros, espalhados por todo o lado.

Percebo aí que há casais em actividade, não sei como conseguem, no meio daquele fedor de ar arrecadado. Dois tipos, não sei quem são, um a enrabar o outro. Parece-me que o que está em baixo nem sabe que lhe estão a ir ao cu. Mais ao lado, dois homens e uma mulher a foder, nos limites da violação. Penetram-na os dois ao mesmo tempo e ela, indefesa, não esboça reacção, parece aparvalhada com o que não sabe que lhe está a acontecer. Nada daquilo tem cor ou dimensão, é estático e nauseabundo, uma mistura grossa de álcool gasto, horas puídas e sexo velho, repassado. E, contudo, esse oxigénio adulterado dá-me uma tesão irreal.

Puxo a minha companheira para cima.

Dormiste bem, amor?

Tiro-lhe a cenoura do cu, que vem com um bocado de merda agarrada e enrabo-a por minha vez. Ela geme, adormecida, com o cu aos estalos à medida que aumento a velocidade das estocadas.

Aplico-me com tanto afinco naquela foda selvática que nem percebo que lhe estou a empurrar a cabeça contra o chão e que ela não consegue respirar. Debate-se contra mim, debaixo de mim, mas não interpreto, não penso se é do prazer ou da dor, para mim ela estar ali ou não estar é absolutamente indiferente, só preciso de um buraco qualquer para enfiar o caralho e dar ao cu.

Finalmente compreendo. Quando ela geme.

Não consigo respirar, caralho, cabrão de merda, psicopata.

Liberta-se do meu peso, ajoelha-se à minha frente e desata a dar-me bofetadas como uma louca. Fico tão estupefacto com a situação que começo a esporrar-me todo, de esguicho, para cima dela. Quando mais ela se protege mais eu lhe acerto no corpo todo, até nos cabelos, toda ela escorre esporra pela pele, não consigo parar de me vir.

Nojento, porcalhão.

Grita ela, sem conseguir acalmar a histeria. Só sossega quando lhe aplico por minha vez uma chapada nas trombas.

Não sei o que estou a fazer, o que fiz até este dia na minha vida. Ponho-me de pé, vomito tudo de um jorro e entrego-me nas mãos do primeiro instante que vai a passar.

 

Armando Sarilhos

Armando Sarilhos

Armando Sarilhos

O cérebro é o órgão sexual mais poderoso do ser humano. É nele que tudo começa: os nossos desejos, as nossas fantasias, os nossos devaneios. Por isso me atiro às histórias como me atiro ao sexo: de cabeça.

Na escrita é a mente que viaja, mas a resposta física é real. Assim como no sexo, tudo é animal, mas com ciência. Aqui só com palavras. Mas com a mesma tesão.

Críticas, sugestões para contos ou outras, contactar: armando.sarilhos.xx@gmail.com

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