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07 Diciembre, 2021 Autoestima: o programa da ARS-Norte que ajuda quem faz Trabalho Sexual

Mais uma reportagem do Especial Associações que prestam apoio a trabalhadorXs do sexo.

O Autoestima está em destaque, neste mês, no âmbito do Especial Associações que prestam apoio a pessoas que fazem Trabalho Sexual. Vem descobrir como o programa da Administração Regional de Saúde do Norte apoia trabalhadorXs do sexo.

Autoestima: o programa da ARS-Norte que ajuda quem faz Trabalho Sexual

O programa Autoestima está inserido no Departamento de Saúde Pública da ARS-Norte. Trata-se de um "programa formal de saúde", como sublinha a sua coordenadora, Maria José Santos, destacando que este ponto o diferencia das demais respostas existentes no âmbito do apoio a trabalhadorXs do sexo (TS).

Assim, o Autoestima não tem "o stress do financiamento" de outras entidades que apoiam TS, uma vez que são organizações de base comunitária e que dependem, muitas vezes, do financiamento público, nomeadamente através do Programa VIH/SIDA - e Maria José Santos é também a coordenadora deste programa nacional na região norte.

Quanto ao Autoestima, o facto de estar integrado numa ARS permite-lhe uma "consistência" e uma "continuidade" que muitas associações que prestam apoio a TS não conseguem, atesta ainda a coordenadora do programa em declarações ao Classificados X.

Este é um dado relevante num tipo de intervenção "desafiante", onde é "fundamental o trabalho dos técnicos" para criar relações de confiança, como analisa a também enfermeira.

Rastrear e vacinar "o máximo" de pessoas

A Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte) é a única ARS em todo o país com um programa com intervenção junto de quem faz Trabalho Sexual.

A sua atuação envolve os distritos de Braga, Porto e Viana do Castelo, com vários serviços destinados a TS.

Além da distribuição de material preventivo, como preservativos masculinos e femininos, gel lubrificante e toalhitas íntimas, o Autoestima também realiza testes de rastreio rápidos e gratuitos, para a deteção de infeções sexualmente transmissíveis (IST) como hepatites B e C, VIH, sífilis, clamídia e gonorreia.

Além do foco nos rastreios, o programa também está empenhado na vacinação contra a hepatite B e o HPV (Vírus do Papiloma Humano).

Assim, procura "rastrear o máximo de utentes possíveis para poder vacinar os que têm indicação" para isso, nota Maria José Santos.

Unidades Móveis são essenciais

As Unidades Móveis são o "maior ponto de contacto" do Autoestima com TS. "Em muitos dos contextos, se não fossem as Unidades Móveis, muitas daquelas pessoas não tinham contacto com nenhuma estrutura formal de saúde, não tinham acesso ao teste, nem a material preventivo", explica a coordenadora do programa.

Além disso, estas Unidades permitem um contacto de proximidade que passa também por "dar um cafezinho" e conversar com as pessoas, para ganhar a sua confiança e poder ajudá-las da melhor forma.

O programa intervém igualmente nos bares, onde há sempre um "contacto prévio" com os gerentes.

Também no caso do apoio prestado em apartamentos há um contacto anterior. Depois disso, os técnicos vão diretamente aos apartamentos, sem estarem identificados, uma vez que a discrição é fundamental para proteger a privacidade das pessoas.

O Autoestima tem ainda Centros de Aconselhamento em Matosinhos e em Braga, onde é possível "prestar um leque de serviços mais estruturados", como destaca Maria José Santos.

Nestes Centros, dá-se apoio social e psicológico, mas também se disponibilizam consultas médicas de ginecologia (Braga) e de medicina geral e familiar (Matosinhos).

Além disso, fazem-se rastreios do cancro do colo do útero e do cancro da mama, sendo que os casos positivos são reencaminhados para consultas hospitalares.

Nos Centros do Autoestima, o trabalho de psicólogos e assistentes sociais é também ajudar à "identificação das necessidades" das pessoas, para que sejam "referenciadas para os serviços que lhes possam dar resposta", nota a enfermeira.

Missão de "proteger toda a gente"

A coordenadora do Autoestima refere que muitas das TS atendidas pelo programa são de origem brasileira. Assim, também se presta ajuda às que estão em situação irregular, pois "têm muito medo", até de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).

"Cria-se um mito porque elas acham que o facto de ir a um serviço de saúde pode pô-las em risco por estarem em situação irregular", aponta Maria José Santos, frisando que "isto tem de ser trabalhado".

Portanto, estamos perante um esforço "contínuo" em que é preciso ter alguma "capacidade de negociação", conforme realça ao Classificados X a coordenadora do Autoestima.

Acima de tudo, é preciso ganhar a confiança das pessoas, para deixar claro que a função do programa é "de saúde". "Queremos é protegê-las, ajudá-las, o resto ultrapassa-nos", explica a enfermeira.

Não se trata de "retirar a pessoa do contexto e agora, vais fazer outra coisa”, mas antes de "aceitação e minimização de danos", aponta ainda.

"Já que têm um comportamento de risco, vamos minimizar o dano ao máximo possível, com material preventivo, rastrear sempre que há dúvidas, encaminhar para tratamento, vacinar para proteção, ensinar estratégias de práticas sexuais com menos risco", salienta a responsável do programa.

Assim, a missão é de "proteger toda a gente", mas sobretudo "os que são ainda mais desfavorecidos", realça.

Cartaz AutoEstima

"Até papel higiénico nos pediam"

A pandemia de covid-19 foi um período desafiante para todos nós, mas mais ainda para as entidades que atuam no apoio a quem faz Trabalho Sexual. Até porque veio destapar a extrema "vulnerabilidade" de algumas destas pessoas, como lamenta Maria José Santos ao Classificados X.

"Fecharam os bares, [as TS] não podiam estar na rua, no caso das que têm filhos, as escolas fecharam e eles vieram para casa. Nalguns casos, os familiares não sabem que elas fazem Trabalho Sexual, o dinheiro não entrava, não havia dinheiro para água, luz, comida básica", relata a enfermeira.

"Até papel higiénico nos pediam", conta ainda a coordenadora do Autoestima, confessando que "foi desesperante" ver as pessoas em tal situação dramática, sem terem direito a subsídios ou a apoios da Segurança Social.

"O trabalho dos técnicos que diariamente estão no terreno foi excecional, desdobrando-se em promover ajudas e encaminhamentos para apoio no banco alimentar. Inscrevemos quem pudemos, fizemos o possível e o impossível", acrescenta.

"Foram uns meses muito duros" para quem fez trabalho de rua e nunca abandonou estas pessoas, assume a enfermeira que fala em “autêntico sofrimento, real, não foi inventado", reforçando que são os custos da invisibilidade de quem se dedica ao Trabalho Sexual.

"Não podemos fazer de conta que estas pessoas não existem", repara a enfermeira, realçando que é preciso "trabalhar estas vulnerabilidades atempadamente e não apenas em pandemia".

"Nada funciona se não for construído" com estas populações vulneráveis, aponta também a coordenadora do Autoestima.

Um sonho ambicioso no horizonte

Olhando o futuro, o programa da ARS-Norte tem vários objetivos para atingir a médio e longo prazo, nomeadamente "substituir as Unidades Móveis por infraestruturas mais adequadas" e promover maior "robustez da equipa" de profissionais que trabalham no Autoestima.

Mas também pretende "aumentar a proporção das mulheres contactadas na Unidade Móvel que venham ao centro fixo" para reforçar o "trabalho de continuidade", como atesta Maria José Santos.

Além disso, quer "aumentar a proporção de contactos por cada mulher", sendo que, atualmente, fazem em média dois contactos por mês” por cada uma, diz ainda.

A pretensão é, igualmente, "aumentar o número de rastreios" para que estas pessoas sejam rastreadas "pelo menos uma vez por ano".

Entre outros objetivos imediatos a cumprir, Maria José Santos tem um sonho mais ambicioso que passa por converter um espaço contíguo ao serviço num local único que pudesse acolher todas as associações da região norte que intervêm no apoio a TS e servir também como ponto de encontro para quem faz Trabalho Sexual.

Seria um "espaço não medicalizado, gerido por um psicólogo" e que permitisse criar "dinâmicas de grupo" e promover atividades lúdicas e ligadas à intervenção pela arte, possibilitando abordar assuntos importantes de forma prazerosa e estruturada.

Além disso, esta infraestrutura podia prestar também apoio jurídico, entre outros serviços.

No fundo, seria um espaço onde todos se pudessem "sentir seguros e bem recebidos", aquilo que toda e qualquer pessoa anseia, como repara Maria José Santos.

Contactos do Autoestima

Site: http://www.arsnorte.min-saude.pt/promocao-da-saude/autoestima/

Centros de Aconselhamento:

+ Matosinhos

R. Alfredo Cunha nº 367, 4450-021 Matosinhos

Tel.: 22 004 5080

Telem.: 96 471 3374

autoestima@arsnorte.min-saude.pt

(aberto de 2ª a 6ª feira das 13:00 às 19:00)

+ Braga

Praceta de Vilar – S. Vítor, 4700-453 Braga

Tel.. 253 278 206

(aberto de 2ª a 6ª feira das 15:00 às 19:00)

 ______

Especial Associações - Anda conhecer melhor quem apoia trabalhadorxs do sexo:

Abraço Aveiro

APF Alentejo

Associação Existências

CAD Porto

GAT Almada / GAT Setúbal

Liga Portuguesa Contra a SIDA

Obra Social das Irmãs Oblatas

Plano AproXima

Porto G

Gina Maria

Gina Maria

Jornalista de formação e escritora por paixão, escreve sobre sexualidade, Trabalho Sexual e questões ligadas à realidade de profissionais do sexo.

"Uma pessoa só tem o direito de olhar outra de cima para baixo para a ajudar a levantar-se." [versão de citação de Gabriel García Márquez]

+ ginamariaxxx@gmail.com (vendas e propostas sexuais dispensam-se, por favor! Opiniões, críticas construtivas e sugestões são sempre bem-vindas) 

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